Do Outro Lado da Cerca: Commodore 64 – É tudo o que dizem mesmo?

O Commodore 64 é a plataforma que mais cobiçei em todos estes anos, mas sempre acontecia algum problema que me impedia de conseguir um… Ou a grana estava curta, ou alguém comprava antes (ou eu perdia o leilão no eBay) e outras coisas que todos nós que pertencemos a este mundo da retrocomputação estamos acostumados.

Mas sabe quando as estrelas e o universo resolvem dar um empurrãozinho no estilo “O Segredo”? Sem mais nem menos a coisa caiu no meu colo e todos os empecilhos extras foram resolvidos do dia pra noite. Pois é, com este meu Commodore 64C foi assim, então agora irei avaliar e ver se a fama de “melhor áudio do mundo 8 bits” é merecida.

“O segredo”

Só por curiosidade, vou resumir o que aconteceu comigo no decorrer de uma semana e parece obra de ficção…

Acordei um dia pensando comigo mesmo “agora eu quero um Commodore 64″. Depois de cansar de ver estes micros indo e voltando a preços que eu não podia pagar, leilões do eBay perdidos e outras coisas do tipo, fiquei com esse pensamento na cabeça de que eu teria que conseguir um C64 naquele mês ao menos.

De repente um amigo das listas de retrocomputação entra em contato e me diz “E aí, tá a fim de comprar o meu Commodore 64C?”… Fui honesto e disse que a grana tava curta e tudo mais, mas no fim das contas tudo se resolveu no bom e velho escambo, veja:

  • O dono do C64 queria um Atari 2600 completaço
  • Eu não tinha o Atari 2600, mas tinha alguns Odyssey’s por aqui…
  • Ofereci os consoles com fitas para o Claudio Moises a troco de um Atari 2600 Polyvox com fitas, saída AV e tudo em ótimo estado, e ele topou!
  • O dono do C64C me mandou o micro, eu mandei os Odyssey’s para o Claudio e ele mandou o Atari 2600 para o ex-dono do C64C
  • Gastei apenas o meu frete de envio e mandei pra frente os consoles que estavam “mofando” na casa dos meus pais, não é lindo?

Depois de toda esta bagunça, antes mesmo de chegar o micro fiquei me perguntando “e agora, como farei para carregar os jogos”? Então como o universo estava generoso, fui avisado na faculdade por um amigo que um drive 1571 estava sendo leiloado no Mercado Livre, quando cliquei no anúncio faltavam 15 MINUTOS para acabar, dei o lance e rezei para o modem 3G dar conta do recado… E GANHEI!

O drive estava sendo vendido “no estado” pois o proprietário fazia anos que não o ligava, então no fim das contas paguei um valor que foi justo e ainda parcelei pelo Mercado Pago (porque a grana tava curtíssima).

Bom, o universo não conspirou sozinho e tenho que agradecer imensamente ao Claudio Moises, que aceitou fazer a troca e entendeu meu esquema para conseguir o micro, agradeço também ao Ricardo Pontual que me vendeu o drive 1571 e foi muito atencioso, e principalmente ao amigo Alexandre Colella por ter me oferecido o Commodore 64C e ter sido tão prestativo e camarada.

Se comunicar é preciso

Ok, estava todo o kit aqui mas faltava algo, eu não tinha nenhum cabo de comunicação e saída AV, e ainda por cima os pinos para a interface do drive seguiam um padrão não muito comum de DIN de 6 pinos. Eu ainda inocentemente fui tentar procurar isso em minha pequena cidade… Ahahaha… Não achei nem conector DB25, quanto menos um DIN de 6 pinos.

Observando na internet, vi que a melhor opção para mim seria construir um cabo XM1541 (multitask cable) para ligar o drive 1571 no PC a fim de passar os jogos, além de ter que construir um cabo serial padrão C64, que é apenas a conexão DIN para DIN pino a pino.

Também tive que fazer o cabo para saída AV, onde apenas um DIN comum de 5 pinos (o mesmo usado nos teclados antigos de AT/XT) seria o suficiente.

Aproveito para agradecer também ao amigo Renato Carneiro que se fez disponível imediatamente quando fiz um pedido na comunidade AppleII_Br para alguém que pudesse me ajudar a conseguir os conectores. Mais uma vez o universo conspirou e recebi os cabos em 2 dias, algo que até o Renato achou estranho a velocidade que o seu fornecedor conseguiu entregar os produtos.

Para fazer o cabo XM1541 cometi a heresia de cortar um cabo extensor de VGA, mas optei por esta vertente pois o cabo era blindado e segundo minhas leituras é recomendado usar um cabo destes para evitar qualquer tipo de ruído na comunicação.

Logo acima você confere a parte do cabo que é conectada a porta DB25 (impressora) do PC. Logicamente depois isolei os diodos e fechei na capa de plástico, no fim das contas ficou bonito.

Para passar os jogos usei o programa “Star Commander“, ao qual deixei um PC antigo separado somente para esta finalidade, alternando entre o Linux (para pegar os jogos pela rede ou internet) e DOS puro (para ter a melhor comunicação possível).

Veja o meu primeiro teste de comunicação, passando o R-Type para o disco:

Pela foto nota-se até uma bolacha de aveia… Puxa, dá um desconto, já eram 4 horas da manhã 😉

Mas foi tudo tão fácil assim?

Vou narrar algumas situações curiosas, mas nada perto do que já passei com outros micros.

Quando o micro chegou, a aparência era legal, tinha um amareladinho aqui e ali mas tudo bem, agora o cheiro de CIGARRO (isso mesmo!) estava insuportável. O Alexandre me avisou sobre um cheiro estranho de queimado quando ele importou o micro da Alemanha, mas não era isso, pelo jeito o alemão ex-dono do micro COMIA CIGARRO.

Estava cheirando cigarro o isopor, o plástico, o micro, teclado e tudo mais… Para EXORCIZAR o cheiro tive que abrir o micro e lavar todo o plástico com sabão de soda cáustica, além de limpar bem o teclado e lavar a placa com álcool isopropílico, pois até ela estava fedendo. Depois deste batismo, aí sim deu para ficar perto do micro, mesmo porque do jeito que estava eu mal conseguia chegar perto pois odeio cheiro de cigarro.

A caixa estava judiada conforme o Alexandre me avisou também, e pelo jeito além do alemão ser um fumante assíduo, devia ter guardado a caixa em algum lugar úmido. Em todo caso o isopor interno estava intacto e a fonte funciona muito bem.

Quando chegou o drive 1571 só precisei dar uma pequena limpada nele, como de praxe, e colei com super bonder algumas travas internas que estavam trincadas e a chave de fechamento do disco que estava com muita folga. Ficou praticamente como um drive novo, que por sinal mandei um e-mail ao Ricardo agradecendo pelo bom estado do produto e o avisando que estava funcionando tudo perfeitamente.

Sorte a minha que há alguns meses atrás comprei um lote de mais de 150 disquetes de 5 1/4 DD, com caixas de papelão a cada 10 discos e ainda 3 arquivos de madeira e acrílico. Pois é, ao menos um meio de armazenamento para os jogos não será problema.

Agora tudo bem que o cara lá de cima estava de bom humor e me deu uma baita força, mas também não podemos ultrapassar as leis da física, afinal, o Commodore 64 tem seus limites e tive que aprender algumas coisas, pois nunca tinha mexido antes com um C64 real, além de que os emuladores facilitam a vida e você não fica digitando nada.

Como o C64 não tem um DOS por padrão, tive que me acostumar com o modo curioso de se listar e carregar os arquivos. Por exemplo, o primeiro drive é chamado de “Drive 8″ (hum?), e para listar os arquivos você primeiro precisa carregar a lista, veja os comandos que em outros micros bastaria digitar DIR ou CAT:

LOAD "$",8
LIST

Ao aparecer a lista, às vezes o arquivo pode ter um nome monstruoso ou com caracteres diferentes, então é mais fácil subir com o cursor e inserir os comandos entre o nome para carregar o jogo. Quando o jogo ocupa o disco inteiro, então basta usar um comando para carregar o primeiro arquivo e mandar executar:

LOAD "*",8,1
RUN

Só achei um pouco estranho na hora de formatar, olha só o comando:

OPEN 1,8,15,"N:NEWDISK,01": CLOSE 1

Pois é, no começo é tudo bem estranho, mas depois que você se acostuma com a sintaxe e entende o porquê desta salada de fruta, acaba sendo um prazer usar o teclado macio de um Commodore 64C.

Tem alguma desvantagem?

Como para mim digitar não é desvantagem, vou desconsiderar este ponto. O que é um pouco chato é o tempo de carregamento do drive, que utiliza comunicação serial pura, bit a bit.

Para se ter uma ideia, o jogo “Auf Wiedersehen Monty” chega a levar mais quase 2 minutos para se carregar de um drive de disquetes, sendo que no MSX o mesmo jogo leva 5 segundos e em meu ZX Spectrum +2 usando Turbo Loading não passa de 50 segundos, por cartão CF usando o esquema do +2e então leva 1 segundo.

A Commodore resolveu isso lançando o Commodore 128, que ao usar o drive 1571 ele ativa a transferência em modo BURST, acelerando o carregamento em até 20 vezes. Segundo minhas consultas, o mesmo jogo “Auf Wiedersehen Monty” leva menos de 10 segundos para carregar nesta configuração.

Alguns títulos utilizam aceleradores de carregamento via software, que apesar de relativamente eficientes, não fazem milagre.

Há soluções via hardware para resolver isso no C64, ao qual pode-se construir uma comunicação paralela soldando um conector DB15 entre o CI do drive e outro DB15 soldado em alguns pinos do CI de comunicação interna do C64, resultando em um ganho absurdo, mas para isso é adequado trocar as ROMs de ambos para que o sistema utilize a comunicação paralela, caso contrário este ganho de velocidade só ocorrerá após o primeiro carregamento do DOS específico, ou para programas que reconheçam este tipo de ligação. É possível também soldar apenas o DB15 no CI do drive, e usar um cabo ligado na saída de expansão na traseira do C64, evitando soldas diretas no CI do micro:

Existem também os cartuchos de aceleração de comunicação, que foi a opção mais utilizada pelos usuários da época que não queriam se dar ao trabalho de abrir o micro, bastando encaixar o cartucho e pronto. Entre os mais conhecidos, cito o famoso Epyx FastLoad e do Action Replay, que garantem um ganho até 5 vezes a velocidade padrão.

Outra solução muito empregada é apenas a troca das ROMs usando o famoso JiffyDOS, sendo o mais rápido de todos, com a grande vantagem de não ter que construir nenhum cabo extra e ter um ganho imenso de velocidade através da comunicação serial padrão, além de que todas as operações de escrita e leitura ao disco são aceleradas, e não apenas algumas operações específicas, caso do cabo paralelo e cartuchos.

Vale o aviso de que todas as soluções acima para aceleração de comunicação são válidas, mas sempre existem alguns probleminhas de compatibilidade aqui ou ali, para isso há opção de se desligar a aceleração em casos extremos.

Deverei futuramente optar pelo JiffyDOS, que se demonstrou a opção mais madura e elogiada entre os entusiastas desta plataforma. Logicamente se o usuário preferir a comodidade plena e não quer nem usar um drive de disquetes, há opções interessantes como o Ultimate 1541, mas tire o escorpião do bolso porque soluções flash para o C64 não costumam ter valores atraentes.

E como sempre, se quiser a solução mais parruda possível, basta adquirir o cartucho Chameleon 64:

Ele é um dispositivo com tantos recursos que é capaz de transformar seu Commodore 64 literalmente em outra máquina, como por exemplo um Amiga 500 turbinado com mais de 20Mhz. Este pequeno cartucho é tão poderoso e versátil que pode funcionar mesmo sem o próprio C64, bastando ligar um cabo VGA, teclado e mouse de PC. O segredo dele é ter FPGA que suporta VHDL, isto é, ele pode se tornar o hardware que quiser e simular diversos conjuntos de CIs com velocidades distintas, ou melhor, uma outra máquina completa. Como nem tudo é perfeito, esta solução chega a ser mais cara do que um Commodore 64 inteiro.

O som do C64 é tudo isso?

Uma única frase: SIM, é tudo e mais um pouco!

Um dos primeiros jogos que quis testar foi o R-Type, e apesar de um defeitinho aqui e ali, foi a conversão para micros 8 bits que achei mais interessante, não a nível de fidelidade, mas pela velocidade geral e principalmente, pela música, que ligada a um aparelho de som é simplesmente fascinante. Vale o longplay no YouTube:

Agora segue um ponto muito importante. A magia de muitas músicas feitas para o C64 esta na utilização de sons digitais, mas que na hora de reproduzir em meu micro, estes canais estavam com um volume baixo e distorcido, caso da excelente música do Turbo Outrun e da voz do jogo Ghostbusters, praticamente inaudível. No começo até pensei que o processador de áudio estava com problemas.

Com uma pequena pesquisa na internet descobri algo que fiquei inconformado em saber que a Commodore deixou passar batido… O famoso chip de música SID possui versões diferentes, isto é, a base de composição das músicas com som digital é a do primeiro Commodore 64, usando o SID 6581, já o Commodore 64C / 128 e outros usam o SID 8580, sendo que nesta versão não ocorre mais um “click” audível ao alterar o registro do volume, então os sons digitais que usam esta técnica não são mais audíveis também.

Fazendo a pequena alteração proposta acima, fui regulando o trimpot no meio da música até o som digital se tornar audível e ficar semelhante ao SID 6581. O resultado físico final ficou assim:

 

Depois desta pequena correção posso afirmar que o som mudou da água para o vinho, finalmente os bonequinhos podiam gritar “GHOSTBUSTERS!” ao caçar um fantasma com sucesso.

Para quem não conhece o poder de som do C64, seguem dois vídeos do YouTube do Turbo Out Run, que resumem bem o poder de áudio do processador SID:

Observação: O segundo vídeo possui restrições de exibição, acesse-o diretamente pelo YouTube para ouvir a música.

Muitos dos jogos do C64 a nível de áudio são capazes de espancar sem dó todos os consoles e microcomputadores 8 bits, mas obviamente apontando apenas os títulos que fizeram um bom emprego do SID, afinal, sempre tem aquelas “obras primas com pliques e ploques” ensurdecedores.

Lembre-se que para toda regra há uma exceção, como por exemplo, posso citar o caso do jogo Draconus, onde achei o tema de abertura do Atari XL muito mais agradável do que o do Commodore 64.

 E os gráficos?

A nível gráfico considero o Commodore 64 uma bela mistura, alguns jogos rodam com mais cores em resolução baixa, outros rodam em resolução alta e me lembram o MSX e ZX Spectrum, mas em todos os casos não vi borrões e limites gritantes de cores, apesar de saber que os limites existem e estão lá.

Dos títulos que joguei posso destacar Commando, R-Type, Arkanoid, Salamander e Turbo Out Run. A grande maioria dos jogos são bons, mesmo que com uma conversão precária aqui ou ali, sempre tem algo interessante no meio. Achei que na taxa de amostragem da biblioteca imensa de títulos para este micro, boa parte dos jogos se saíram bem e puderam me conquistar.

Na imagem acima:

  • R-Type / Golden Axe
  • Salamander / Auf Wiedersehen Monty
  • Stunt Car Racer / Last Ninja
  • Creatures / Test Drive II

O ponto mais importante que afeta positivamente os jogos do C64 é a suavidade no deslocamento das telas (scroll) e quantidade de objetos se movendo simultaneamente, sendo que muitos títulos realmente são capazes de fazer frente ao NES.

Conclusão

Sonho realizado, mais uma plataforma para a lista da Casa dos Nerds, e qual é a conclusão?

Avaliando os prós e contras que toda plataforma retrocomputacional possui, afirmo sem dúvidas que o Commodore 64 faz jus a sua fama de bons jogos e capacidade sonora excepcional. Só acho uma pena os valores que envolvem esta plataforma serem tão altos, ao qual posso considerá-lo como um dos micros 8 bits mais caros para incrementar, o que é curioso, já que ele não é uma máquina rara.

Não há como afirmar que exista uma plataforma de 8 bits suprema, todas tem a sua magia e envolvem sempre um sentimento saudosista por parte do usuário. Em todo caso, posso dizer que o Commodore 64 está entre os mais admiráveis.

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Um comentário sobre “Do Outro Lado da Cerca: Commodore 64 – É tudo o que dizem mesmo?”

  1. Muito boa a avaliação do C64. Fui o feliz proprietário de um e confirmo tudo o que disse. Adorava aquele computador.
    Abraço!

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