Do Outro Lado da Cerca: Zillion (1987, SEGA Master System)

Capa do Zillion americano

Metroid é um dos jogos mais sombrios e solitários já produzidos. Você controla uma figura pequena e estranha e a guia através de infinitos corredores negros, uma criação senil que confundiu e assustou jogadores durante décadas. E é claro, tudo que a Nintendo conquistou, a SEGA tentou imitar. Nintendo tinha o Mario, a SEGA tinha Alex Kidd. Nintendo tinha Zelda, a SEGA tinha Golvellius e Golden Axe Warrior. Nintendo tinha Castlevania, e SEGA tinha Kenseiden e Vampire: Master of Darkness. E assim por diante. Zillion pode ou não ter sido inspirado pela obra-prima de Gumpei Yokoi, mas foi inicialmente criado para ser um produto relacionado à um jogo de “laser tag” japonês. E o fato que a arma do Zillion parecia exatamente com a Light Phaser (a respota da SEGA ao Zapper) não era mera coincidência.

Zillion (com o prefixo “Akai Koudan” no Japão – que significa “Projétil de Luz de Vermelha”) tem em sua abertura um cara de olhos grandes e um corte de cabelo “tigelinha” apontando uma arma para a sua cara. Em apenas dois, talvez três segundos desde que você ligou o Master System, e o jogo já está ameaçando a sua vida. O violento, mas ainda educado personagem de anime é o herói, J.J, que você controlará por boa parte do jogo. Depois de um briefing rápido do seu comandante onisciente, você parte para se infiltrar na base dos vilões, que não tem rostos. Você começa na superfície de um mundo alienígena verde brilhante. Ao avançar, você encontrará a entrada da base. Volte e você encontrará a nave-mãe. Dentro dela, uma bela garota de cabelos verdes te desejará sorte e recarregará a sua energia.

Zillion desafia o mapeamento de botões tradicional, invertendo os botões de “pulo” e “tiro”. Seus personagens pulam numa estranha posição agachada, seguida de um estranho som de molas. Sua pistola Zillion dispara projéteis bicolores, que atravessam cerca de metade da tela antes de se dissiparem. Isso é algo bem padrão nos vídeogames, mas o poder dos seus disparos é amplificado, sendo que a sua pistola tem um dos efeitos sonoros mais incríveis já criados pelo pequeno sintetizador PSG do Master System. Sério, ela é tão poderosa que faz que metade dos instrumentos da música de fundo simplesmente pararem de tocar, um efeito dramático realizado por acidente, devido às limitações técnicas do aparelho. Quando o seu laser acerta os altos e magros guerreiros Noza, eles explodem em chamas, com um ruído exagerado que sugere um pequeno apocalypse. Você está destruindo mundos cada vez que aperta o gatilho. Isso é bem bacana.

Enquanto Metroid começa com o triunfante tema de Brinstar, e logo muda para algo mais opressivo a cada nova área, Zillion mantém a mesma música alegre tocando durante todo o jogo. Isso seria irritante, se esta não fosse uma das músicas mais grudentas produzidas durante a geração 8 bits. Assim como os gráficos, sua alegria trai o tom ameaçador que sutilmente transpira do jogo .

Zillion se apresenta tela à tela. As primeiras telas são de um amigável azul claro, o tipo de cor que lembra um belo dia de verão ou um quarto de bebê, exceto que existem coisas nelas querendo te matar. Muitas e muitas coisas. As telas mais avançadas são de um tom vermelho, escolhido especificamente para incitar tanto medo quanto raiva. Este é o mesmo inferno em 8 bits que Norfair, só que com o dobro de core e sprites maiores. Ao apertar o botão de pausa (incomodamente colocado no console em si, ao invés do controle) o menu  de status aparece, juntamente com um tímido retrato do J.J. À medida que você explora, você eventualmente encontrará seus parceiros Apple e Champ, dos quais as fotos também irão aparecer nessa tela. Isto parece amigável até demais. Escolha eles entrarão em ação, cada uma com suas próprias características. Apple é rápida, mas fraca. Champ é lento, mas forte. Ambos podem ser aprimorados, achando os pequenos símbolos do Opa Opa escondidos pela base.

Diferente da maioria das fortalezas dos vídeogames, onde o herói simplesmente abre a porta da frente e vai sambando caminho adentro, toda e qualquer porta do QG dos Noza está trancada. Apesar de seu cuidado com a segurança ser aparente, eles são burros o suficiente para deixar os códigos de acesso largados por aí, em coisas que parecem latas de lixo. Ao se quebrar uma lata, um dos códigos é revelado, os quais se espera que você memorize. A cada vez que você encontra um código, você o coloca na fila em sua cabeça, repetindo-o várias vezes para si mesmo. De vez em quando, o jogo se torna uma batalha de J.J e seus amigos contra soldados robôs – mas na maioria das vezes, é uma batalha contra a sua memória de curta duração (sim, você pode escrevê-los num papel, mas assim fica muito fácil). à primeira vista, os símbolos parece alienígenas, mas quase todos eles não imagens espelhadas de números, ligados um ao outro como gêmeos siameses. Felizmente, uma vez que você termina uma sala e abre a porta, não é necessário lembrar de mais nada, até você chegar na próxima sala. Cada sala te uma estrutura única, apesar do jogo contar com uns poucos tilesets. Existem também um mapa, mas é apenas uma grade sem sentido, que só serve para te dar uma falsa sensação de organização. E no fim das contas, lembrar do caminho de volta baseando-se itens do cenário não tão difícil assim.

Metroid assusta porque dá a sensação de não haver ordem no design dos níveis, apesar desta ordem existir. Zillion, em contrapartida, simplesmente pressiona você à ir para frente, e rápido.Não existem um limite de tempo – mas também não existem senhas ou save games. O jogo deve ser jogado do começo ao fim toda vez que você liga o console, o que pode levar talvez duas ou três horas, dependendo do quão bem você já conhece o caminho. Dedicar uma tarde à este jogo é extremamente recomendado. Até mesmo quando eu era mais jovem, meu tempo para vídeogames não era realmente ilimitado. Houveram vários momentos em que a minha incursão no coração do mal não tinha sido frustrada por soldados robôs, mas sim pelo meu pai, que me tirou da TV. Zillion é uma corrida contra o mundo real, que perde muito do seu impacto nos emuladores, onde parar o mundo é tão fácil quando apertar o botão de save state (para aumentar a diversão, pegue um Master Gear e jogue-o num Game Gear –  ele então se torna uma corrida contra seis pilhas AA sendo drenadas rapidamente).

A intensidade do jogo chega ao seu ápice quando você encontra todos os cinco disquete e chega ao computador central, e deve escapar do complexo, atravessando antes que exploda. Com sorte, você já deve estar bem familiarizado com o layout agora – você terá que refazer todo o caminho de volta até a entrada. Continues são preciosamente limitados – falhe aqui e já era. Ninja Gaiden achou que era sacana por mandar você de volta ao começo da última fase se você fosse morto pelo último chefe… erre mais que algumas poucas vezes e o líder Noza (que na verdade nunca aparece para lutar) simplesmente te provoca e você volta para a tela de título. Todo o seu progresso é apagado para sempre da diminuta memória RAM do SEGA Master System. Naturalmente, este tipo de coisa acaba não conquistando muito fãs nos dias de hoje. Mas também, os lentos comandos  de pulo e a caça repetitiva de ítens no lixo também não vão atrair muita gente assim mesmo. É um tiro no pé, e o desafio parece um tanto artificial. Mas é o tipo de jogo que faz a gente feliz que a Nintendo exista, mesmo que seja para que a SEGA aparecesse e tentasse fazer melhor.

Apesar de Zillion ser o mais próximo que a SEGA já chegou de criar um clone de Metroid, os jogos são bem diferentes. Ele na verdade foi bastante inspirado no clássico computadores Impossible Mission, criado pela Epyx. O esquema de cores e os fossos dos elevadores são bem parecidos, e ambos os jogos contam com terminais onde se é possível desligar armadilhas em cada sala. A SEGA obviamente pegou o conceito e trabalhou em cima dele, mas o método de progressão é mais parecido com Metroid, já que Mission é bem não-linear. Você também não pode atacar em Impossible Mission, enquanto você pode em Zillion – e isso obviamente é uma grande diferença.

Confira mais fotos de Zillion na galeria no fim deste artigo.

Zillion em Português

Zillion em Português

Em 2008, devilfox, membro do grupo P.O.B.R.E., lançou uma tradução para português brasileiro da ROM, compatível com a versão americana/européia do jogo. Confira aqui e aqui.

Anime

Zillion teve 31 episódios, e foi umas das poucas séries de anime á serem lançadas em sua totalidade aqui no Brasil. Algumas músicas do jogo na verdade vieram do anime, com seus teclados anos 80 e vocais em japonês. As músicas de abertura e encerramento estão incluídas no pacote de MP3s abaixo. O maior disapontamento é que J.J., um dos meus heróis de infância (assim como Alex Kidd e Kelesis, de Golvellius), é um imbecil completo, um fracassao que só anda junto com os White Knights para ser o elemento cômico da série. Além de lutar contra o Império Noza, eles também tocam numa banda chamada “The White Nuts”, alguma espécie de trocadilho em “engrish“. Ver todos estes personagens animados é bem divertido, e Opa Opa também aparece várias vezes. A série é bem rara de se achar, mas pode ser vista pelo menos em partes no Youtube.

MP3s

Baixe aqui

Vídeos

Intro

Jogabilidade

Finais Alternativos

Impossible Mission no C64

Abertura do Anime (Japão)

Abertura do Anime (Brasil)

Galeria

Na próxima semana: Zillion II: Tri-Formation!

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